BOVARY E BOVARISMO: PERSONAGEM E PARADIGMA
- Luciano Dídimo
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Desde 1856, ano de publicação do romance Madame Bovary, de Gustave Flaubert (1821-1880), o poder de inserção da protagonista no Inconsciente Coletivo feminino repercute como fenômeno de empatia não perecível com o tempo. Qual seria a gênese desse poderio arrebatador da personagem? O que Emma Bovary teria como característica primordial que a torna assim capaz de desdobrar-se como símbolo, como emblema não só da educação da mulher no século XIX mas da própria condição humana, em uma perspectiva ucrônica e prototípica ?
Para elucidar o fascínio trans-histórico exercido pela criatura de Flaubert, uma das inúmeras respostas possíveis encontra-se em Otto Maria Carpeaux que, no prefácio do romance publicado pela Ediouro em 1994, afirma que a longevidade da força motriz catalisadora de Emma Bovary enquanto arquétipo deve-se ao quixotismo que lhe é inerente. Para Carpeaux, é em função de sua tendência às idealizações que a personagem perpassa épocas, reatualiza-se e persiste como valor universal e de ontologia. Assim, segundo o prefaciador, ao identificar-se como Madame Bovary na célebre frase ‘‘Emma Bovary c`est moi’’, Flaubert poderia estar atribuindo um certo quixotismo à sua ‘‘própria mentalidade de romântico fracassado’’.
Em sua correspondência ativa, durante os cinco anos (de 1851 a 1856) dedicados à elaboração de Madame Bovary, Flaubert, além de relatar seu processo de criação, demonstra interesse pela obra de Cervantes e especialmente pela emblemática figura de Don Quixote. No livro Cartas Exemplares, de Flaubert, que Duda Machado organizou e prefaciou para a editora Imago, em 1993, o escritor francês, entre as inúmeros relatos de suas jornadas de trabalho, refere-se a essa predileção.
Em algumas de suas cartas do período em que ainda estava empenhado em redigir a primeira parte de Madame Bovary, Flaubert comenta que ‘‘a biblioteca de um escritor deve se compor de cinco a seis livros, fontes que é preciso reler todos os dias’’ e inclui Cervantes entre os seus autores prediletos, ao lado de Rabelais, Sófocles e Molière. Reiteradas vezes ao longo de sua correspondência, o romancista cita Don Quixote de la Mancha, obra literária que admira pela ‘‘ fusão de ilusão e realidade que o torna um livro tão cômico e tão poético’’.
O envolvimento de Flaubert com Don Quixote de la Mancha o leva inclusive a confessar, em carta datada de 20 de julho de 1853, que deseja escrever um dia um romance de cavalaria. Plausível, portanto, seria supor que Don Quixote de la Mancha, por ser uma novela picaresca que parodia os romances de cavalaria do medievo, serviria de modelo a esse romance aventado por Flaubert.
Considerando-se a admiração do escritor pela personagem-título de Cervantes e ainda sua propensão às projeções quiméricas apontada por Otto Maria Carpeaux, poder-se-ia admitir Don Quixote como parâmetro para o delineamento radical da personalidade de Emma Bovary.
Independentemente dessas pressuposições, a verdade é que, ao caracterizar a protagonista de Madame Bovary, Flaubert – além de compor uma das personagens inaugurais do realismo posterior a Balzac e do naturalismo precursor de Zola – fomenta, ainda que involuntariamente, a aparição do bovarismo, uma categoria do comportamento humano posteriormente apropriada pela psiquiatria e pela psicanálise do século XX.
Levando-se em conta o conceito de bovarismo definido como o pendor, em certas personalidades tendenciosamente românticas, para personificar modus faciendi e modus vivendi fantasiosos, incompatíveis com a realidade, bovaristas seriam, pois, os que como Emma Bovary, a respeito de si mesmos e a despeito da vida real, alienam-se em ilusões que, uma vez contrariadas pela imponderabilidade da práxis objetiva, os levam ao desespero, à depressão e ao ressentimento.
Para o psiquiatra e pensador francês Jules Gautier, inventor do termo em sua aplicabilidade ao universo psiquiátrico, o bovarismo sintetiza os sintomas dos que imaginam ser o que em verdade não são.
Genericamente, esta sintomatologia, emigrando do âmbito das ciências médicas para o das ciências sociais, seria reconhecível em superestruturas de alguns estratos das sociedades e até mesmo como característica própria do processo que emperra a emancipação de alguns povos colonizados. A personagem-título de Flaubert, portanto, transcendendo o protótipo da esposa em conflito com a submissão do casamento nos moldes do século XIX, funda um conceito que generaliza-se para além da condição feminina e ramifica-se em estudos sociológicos e de antropologia cultural.
Essa generalização atesta a trans-historicidade de Madame Bovary e quantifica sua cristalização no imaginário do Ocidente, de tal forma que hoje, simbolicamente, já não caberiam os pressupostos estritamente autobiográficos daquela resposta de Flaubert ( Emma Bovary c` est moi) quanto ao modelo no qual teria inspirado-se para imaginar e compor a personagem principal de seu romance.
Se é possível sinonimizar bovarismo e quixotismo ou, pelo menos, emprestar à palavra bovarismo a significação genérica e o sentido metafórico da possibilidade de o ser humano sonhar ser o que não é, independentemente das imposições de gênero, classe social e nacionalidade, ser Madame Bovary converter-se-ia em um pressuposto basilar da natureza humana, mesmo que ao desfrutá-lo o Homem conseguisse ou não reverter sua inadequação no contexto histórico e viesse a capitular ou a triunfar antes às adversidades enfrentadas.
Nesta acepção que define bovarismo como uma vocação quixotesca, uma compulsão à utopia, mais condizente, portanto, seria Flaubert afirmar que Madame Bovary somos todos nós.
Ricardo Guilherme
Cadeira nº 37 da AFL






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