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Narciso Ocidental – O Divino

  • Foto do escritor: Luciano Dídimo
    Luciano Dídimo
  • 6 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura




“Que eu vivo à espera dessa noite estranha,

Noite de amor em que me goze e tenha,

...Lá no fundo do poço em que me espelho!”


   

  Uma reflexão sobre o Mito de Narciso e o reflexo de nossa imagem diante da nossa própria condição de existir, frente à magia do espelhamento que criamos para nos utilizar do nosso próprio mito.

      Um mito inseguro, escuro, onde existe um caminho aberto para as profundas zonas do Eu, e que nós o fechamos pelo medo de navegar, mesmo sendo a nave do Outro, a fuga e o reflexo do nosso próprio eu.

     Onde estão os mistérios da vida que se perderam de vista e dos seus significados? É um mundo complicado, desfigurado, como um ovo primitivo, cheio de tendências obscuras.

     Enfrentamos hoje um mundo desequilibrado, mas é necessário nos confrontar com essa loucura e responder aos questionamentos externos e internos, não fugir da nossa imagem refletida em um espelho vazio, sem eco e sem sentido de vida. Essa imagem nada nos revela. O que ela nos mostra é o superficialismo e o imediatismo de nossos desejos recorrentes, da ausência de significados, sem conseguir amar ninguém. E nos narcotizamos. Enfadamos muitas vezes para adquirirmos glória, celebridade, dentro de um egoísmo moderno, outras vezes nos transformamos em um Narciso contemporâneo, afundado no consumismo, que não sabe o significado da palavra amor, conhece apenas o amor de si.

     O filósofo Aristóteles, distinguiu a filáucia, amor que é uma virtude, do arrogante, do egoísmo vulgar de quem ama a si mesmo, querendo para si a maior parte dos prazeres e das honras. Podemos citar também outra forma de amor desconhecida no âmbito excessivo da vaidade humana. O amor fati, expressão usada por Nietzsche como “fórmula para a grandeza do homem”. Significa não querer nada de diferente do que é. Não só suportar, mas também amar o necessário.

     O Mito Narciso é utilizado, muitas vezes, para mostrar o nosso egoísmo moderno, que não reconhece o Outro nem quando esse lhe grita: Ei! Estou aqui ao seu lado! Não tem eco. Ele é o símbolo da vaidade excessiva. Símbolo da insensibilidade. Não podemos afirmar se Narciso não viveu o seu drama da individualidade e da existencial idade, buscando a alteridade.

        Reconhecer o Outro para nos reinventar dentro de um processo íntimo e individual, é trocarmos o Eco pela palavra, para não reproduzir somente o que os outros pregam. O conhecimento advém pela palavra. A palavra que retorna do Outro em direção ao Eu, opera a metamorfose do engano em conhecimento.

     Diante do espelho, habita no subterrâneo do nosso âmago, um ser conflituoso, angustiado, fraturado, que não se liberta pelo medo de se enfrentar. E perante o espelho, a imagem refletida é um jogo constante entre ser e parecer, falso e verdadeiro. Não vê a sua identificação que se revela, apenas aponta uma distância entre o Eu e o Eu Outro. Na transparência das águas cristalinas e ao mesmo tempo escura, a alma é profunda como um segredo de tantos mistérios. Mas quando as águas se iluminam na limpidez do inconsciente, pode-se vislumbrar as nuvens brincando num vago céu.

       Talvez as águas do rio que refletiram a face de Narciso, sejam hoje, este gueto líquido virtual, como afirma Baumann em sua obra “Modernidade Líquida”, onde as imagens dos entes, aparecem efusivas, lindas, sorridentes, quando na verdade lá no fundo do seu rio, existe apenas o escuro, onde eles preferem fechar as portas e permanecer no espelho de um tempo em que as imagens só repetem o mesmo discurso extensivo a todo público.

     Somos ecos virtuais, por não suportar ouvir a repetição do nosso escuro.

     Falar com o Outro é conhecer-se a si mesmo. As águas do rio de Narciso, pode nos extasiar pelo doloroso engano. Não deciframos no êxtase o engano da verdade, a passagem do enganoso para o conhecimento, da imagem em direção à voz. Por isso somos mascarados narcisos, surdos ao ouvir o som narcotizado, dirigindo-se a nós com sua faculdade interior de desejos com vistas à felicidade máxima possível. Nessa hora é o momento em que devemos nos voltar para nós mesmos, porque o Eco patológico é a nossa própria voz, num cenário conhecido como a patologia da época, cercada de melancolia, angústias, nostalgias e muita depressão. Tudo isso desenvolvido pela perda do objeto de amor.

      As criaturas, hoje, vivem narcotizadas pelo que emana em excesso de uma economia masoquista, que afeta o Eu, e este, em desespero, clama pelo conhecimento e pela busca do amor, da religião, do agora inconsistente, que não apresenta nenhuma resposta para a identidade de uma criatura sem rosto, que se alimenta imperativamente do gozo do prazer em todos os seus sintomas. As consequências de um Amo capitalista se faz notar, numa vida insuportável e banalizada pela violência das feridas expostas, mas sem força de síntese, pela destituição e banalização dos valores que transcendem os objetivos e a fé na vida, a qual desvalorizada pelo inconformismo de um amor perfeito não realizado, de um corpo em sua forma bela e formosa não alcançado, agarram-se à crença de discursos proféticos, onde prometem esculpir corpos como se esculpiam estátuas belíssimas de Deuses na Grécia antiga.

     Talvez a paixão pela caça que existia em Narciso, fosse a caça-busca do conhecimento, o caçador de si mesmo, em sua fragilidade solitária, num tempo híbrido, onde a imagem padece por não encontrar o eu ideal e o ideal eu, projetando-se para um enamoramento de si próprio. Narciso ao buscar o conhecimento, conhece-o pela palavra, extasia-se ao conhecer seu rosto de rara beleza e grita: “Este sou eu!”. Mas não existe a sincronia entre a imagem e a palavra. É apenas eco repetitivo sem relação com o Outro.

     Deita-se na grama fascinado pela sua fatal beleza, e se delicia, até se transformar numa bela flor com o cunho de Narciso. Flor esta pela a angústia de ser uma natureza morta e pela impossibilidade de ressignificação, odeia geadas.


Gilda Freitas

Cadeira nº 36 Patrono: Raimundo Cela


 
 
 

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