LUGAR DE LACUNAS

Na Chácara Flora os fantasmas caminham em vão à procura do que era e do que ali estivera, enquanto o vento varre do chão as andanças de passadas compassadas e silentes. Sitiadas por estas ausências, as visagens revolvem escombros, rancorosas na guerrilha contra o tempo. De um longe retornam e se tornam detentoras do longevo lugar, deslugar tão íntimo e entretanto tão ínfimo agora porque dele só restam reles relembranças que ainda respiram pelos poros das paredes aos pedaços.
Partiu-se a Chácara e da Chácara várias vidas partiram quando se partiram as portas, as janelas e os telhados. Nas entranhas da casa devassada repousam mortos amalgamados na argamassa, parentes emparedados, redivivos antepassados que ressuscitam e apascentam impacientes as horas.
No fim de tarde um pôr do sol volumoso de vermelhos e amarelos esmaece em espasmos de preguiça o azul. Nas árvores nenhuma notícia de pássaros, nenhum bater de asas. O arvoredo esclerosado já não retém verde a infância do Benfica. Inexistem ninhos, mas de repente em meio a essa desalegria aparece passarinhando desgarrado dalgum passaredo um passarinho de plumas pretas que retardatário voa, revoa, pousa e trina sobre os entulhos.
Ricardo Guilherme
Cadeira nº 37
Patrono: Raimundo Girão




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